quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Q

O título da coletânea organizada pelos professores Jean Michel Salanskis (pesquisador do CNRS) e Hourya Sinaceur (diretora de pesquisa no CNRS) é bem adequado: Le Labyrithe du Continu (Springer-Verlag, Paris, 1992). Poucas idéias são, para mim, mais perturbadoras do que a reta dos números reais. Seus paradoxos são conhecidos há mais de um século, mas a pergunta "qual o primeiro número maior que 1?" me fascina.

Ontem ia lendo um artigo sobre Leibniz, na verdade, sobre a notação que Leibniz sugere para o tratamento matemático do infinito. ("Leibniz´ Principle and Omega Calculus", D. Laugwitz, professor em Darmstadt). O artigo é menos interessante do que a sugestão de Leibniz: o infinito e o infinitesimal são apenas ficções convenientes. Podem ser substituídos por quantidades definidas para se obter a precisão que se desejar no cálculo. É evidente que a "precisão que se desejar" não parece filosoficamente sólida, mas o argumento é poderoso: "se alguém duvida de seus resultados, deve dar um exemplo".

Por isso sigo achando que a reta dos reais é um fonte inesgotável de idéias.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

O quarto vermelho

Agora lendo a versão completa, na tradução genial de David Hawkes, só me resta repetir o que escrevi em 2009:

"Não é uma viagem curta, duas horas e quinze, e consumiu facilmente o capítulo VII de The Classic Chinese Novel, do professor C.T Hsia. Seu texto, brilhante em vários momentos, trata do Sonho do Quarto Vermelho (Hung-lou meng), publicado originalmente em 1792. O autor é Tsao Hsueh-Chim, mas já sabemos que sua real autoria jamais será conhecida e é provável que a extensão atual e parte dos capítulos finais seja obra dos editores. Fosse Chin Sheng'tan vivo, o Sonho seria ainda melhor e mais ajustado. Notas anteriores desse blog registram que já tentei ler o Sonho, sendo interrompido pelo tédio natural provocado por desventuras de amor. 

O professor C. T. Hsia mostra, contudo, que essas desventuras, festas, romances e outras trivialidades sociais da grande mansão senhorial do Yungkuofu não podem ser entendidas senão à luz do que não se mostra. A realidade da política imperial, onde toda riqueza é incerta e toda posição superior pode comprometer a honra. A realidade das políticas matrimoniais, onde o amor é inútil e a sensibilidade um risco. Durante um tempo, as jovens sonham com o amor, os jovens sonham em ser sensíveis. Elas querem se divertir, eles não querem crescer. É como em Brasília. 

O relógio da vida, contudo, segue batendo. Uma hora, virão os concursos para o serviço do Imperador; uma hora virão os casamentos arranjados ou a posição de concubina. Então os jovens vêem que os velhos apenas os pascem como gado, os divertem por um tempo, os deixam brincar na proteção de um jardim. Tsao Hseuh-Chin, contudo, não está interessado em escrever um romance de formação. As moças ficam doentes de amor, os jovens são empurrados para a perda do caráter, para a insensibilidade. Algumas morrem, outras viram freiras, outros se embrutecem no Tao. Tudo se desfaz, como um sonho no quarto vermelho. Fica um gosto ruim na boca."

domingo, 23 de abril de 2017

Peacock room

Dentre as coisas que me causam maravilha, a Sala do Pavão, no museu Freer, tem um lugar especial. Fui pesquisar o assunto e descobri que Charles Lang Freer (1854-1919) e James McNeill Whistler (1834-1903) mantiveram uma bela amizade, apesar da distância em anos e condição social. Freer era já o magnata dos carros de trem quando conheceu o pintor e logo se dedicaria apenas à sua fortuna e sua coleção de arte. As cartas que ambos trocaram foram publicadas em 1995: With Kindest Regards (1890-1903), editadas por Linda Merrill, em uma publicação do Smithsonian. Freer tinha legítimo entusiasmo com a arte de Whistler, mas a correspondência entre os dois tem algo de comercial, cauteloso e meio distante. O pintor tinha fama de temperamental e Freer, por seu lado, era uma pessoa reservada.

A Introdução acaba preenchendo os espaços vazios deixados pelas cartas. Tecnicamente, para os padrões do século XIX, Whistler estava em seus últimos anos e Freer começava a aproveitar seu tempo e dinheiro. A amizade em torno da obra era o real conteúdo dessa relação respeitosa e também interessada. Na história da arte, um evento raro.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Dois motivos

Sensacional. Há duas razões para não atribuir significados substantivos a resultados eleitorais. A primeira é clássica, iluminista: todo procedimento de votação é artificial e incapaz de refletir a diversidade de preferências. Está na raiz de processos de votação. Não tem como mudar e ainda é agravado pelo teorema de Arrow. A segunda é operacional: toda votação, em alguma medida, é manipulável ou manipulada. Reflete comportamento estratégico de eleitores e candidatos. Por isso, eleição é apenas uma eleição. Não quer dizer mais do que isso. Ah, o livro é de 1988.




terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Poetas menores

Poetae Minores é uma coletânea editada e traduzida pelo professor Ernest Raynaud e publicada pela Garnier em Paris em 1931. Está há tanto tempo em minha biblioteca que nem tem data e assinatura na contra capa. Deve ter chegado ao Rio de Janeiro nos anos 1950, para alguma biblioteca de gente com dinheiro e suas folhas ainda estão coladas depois da página 100. Não foi lido além desse ponto e deve ter sido vendido a um sebo nos anos 1980, onde o comprei. O livro vai fazer cem anos em pouco tempo e alimenta minha curiosidade. Leio, no correr dos anos, um poema aqui, outro ali. Os versos raramente são felizes. São poetas menores, literatos de corte, convencionais ou rebuscados. Vez por outra, uma fórmula feliz, como a dos poemas de Spurina ou Servastus, que reservo para um uso futuro, ou o curioso poema de Eucheria, ironizando um pretendente, no século V ou VI. Já tinha grande carinho por esse livro quando li o poema de Borges:

Poeta Menor


A meta é o olvido
Ele chegou antes.


Pós escrito. Os versos de Spurina, um político sério, mencionado por Plínio, o Jovem, tratam da renúncia à vida ativa: Nos sero pelagus vicimus invium/ Quidquid viximus, interit. O mero domínio do português permite intuir seu significado e sua contenção. A tradução do professor Raynaud, contudo, é prosaica.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Acerca do Futuro

Os dias seguem confusos por conta da política. Ao menos uma leitura restará desses tempos: o artigo do professor Patrick Todd, de Edimburgo sobre os futuros contingentes: "Future contingents are all false". Está publicado em Mind, volume 125, Number 499, Julho de 2016.

Como sempre suspeitei, proposições contingentes sobre o futuro são falsas: futuros contingentes envolvem uma contradição interna. Se algo que acontecerá, acontece determinadamente, então a proposição não é contingente. Precisa ser verdadeira ou falsa. Se algo que acontecerá não é determinado, a proposição contingente será falsa também (pág. 795). Há mais: "Se existem muitos modos pelos quais as coisas podem acontecer a partir de agora, então não há qualquer fundamento para que um desses modos seja especial entre os muitos".

O futuro, como registra o Todd, não é único.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Música mística

2. E esta canção era a mais espantosa, grande e maravilhosa das coisas, pois por meio da melodia que está na boca e no instrumento, a alma desperta e o Espírito Santo nela resplende. E vai ao alto e alcança o supremo entendimento, que não podia antes atingir.

3. E esta canção excelente é uma voz que sai da boca dos cantores em temor, espanto e santidade. Sobe e desce, se estende e se encurta, como se inspirada por uma canção dos altos ministros. E enquanto se move por graus que são conhecidos pelo desenho dos pontos, em frases cantadas por vozes deleitosas, tais frases são ordenadas de acordo com as virtudes espirituais, como está explicado no ensino da Música.

7. "E ao rei Salomão - possa descansar em paz - foi dado a saber essa canção, mais do que a qualquer outro em sua geração. Como dizem aqueles cuja memória é uma benção: ´nove anjos que cantam à noite cantam sobre todos os que podem cantar; e quando os homens começam a cantar, os mais elevados se somam a eles para que possam saber e compreender e alcançar o que a Terra e os Céus não alcançam. Ao cantar, eles ganham poder".

8. Rabi Nehemias disse: `Feliz é aquele a quem é dado a conhecer esta canção, pois aquele que a conhece, conhece a Torá e a sabedoria, e há de ouvir e investigar e ganhará poder e gevurah sobre as coisas que foram e as que serão´.


Isaac ben Solomon Ibn Sahula (n. 1244), Comentário ao Cântico dos Cânticos.

Seleção dos trechos "Canções como conhecimento transcendental", citados por Joscelyn Godwin, Music, Mysticism and Magic. A Sourcebook, Londres, 1986.

De acordo com Godwin, esse penúltimo parágrafo (7) é uma reelaboração de trechos do Zohar. Ibn Sahula viveu na Espanha de Alfredo, o Sábio, e viajou pelo Oriente Médio. É o autor de uma célebre e ainda editada coleção de histórias fantásticas e fábulas.