Sensacional. Há duas razões para não atribuir significados substantivos a resultados eleitorais. A primeira é clássica, iluminista: todo procedimento de votação é artificial e incapaz de refletir a diversidade de preferências. Está na raiz de processos de votação. Não tem como mudar e ainda é agravado pelo teorema de Arrow. A segunda é operacional: toda votação, em alguma medida, é manipulável ou manipulada. Reflete comportamento estratégico de eleitores e candidatos. Por isso, eleição é apenas uma eleição. Não quer dizer mais do que isso. Ah, o livro é de 1988.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
Poetas menores
Poetae Minores é uma coletânea editada e traduzida pelo professor Ernest Raynaud e publicada pela Garnier em Paris em 1931. Está há tanto tempo em minha biblioteca que nem tem data e assinatura na contra capa. Deve ter chegado ao Rio de Janeiro nos anos 1950, para alguma biblioteca de gente com dinheiro e suas folhas ainda estão coladas depois da página 100. Não foi lido além desse ponto e deve ter sido vendido a um sebo nos anos 1980, onde o comprei. O livro vai fazer cem anos em pouco tempo e alimenta minha curiosidade. Leio, no correr dos anos, um poema aqui, outro ali. Os versos raramente são felizes. São poetas menores, literatos de corte, convencionais ou rebuscados. Vez por outra, uma fórmula feliz, como a dos poemas de Spurina ou Servastus, que reservo para um uso futuro, ou o curioso poema de Eucheria, ironizando um pretendente, no século V ou VI. Já tinha grande carinho por esse livro quando li o poema de Borges:
Poeta Menor
A meta é o olvido
Ele chegou antes.
Pós escrito. Os versos de Spurina, um político sério, mencionado por Plínio, o Jovem, tratam da renúncia à vida ativa: Nos sero pelagus vicimus invium/ Quidquid viximus, interit. O mero domínio do português permite intuir seu significado e sua contenção. A tradução do professor Raynaud, contudo, é prosaica.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
Acerca do Futuro
Os dias seguem confusos por conta da política. Ao menos uma leitura restará desses tempos: o artigo do professor Patrick Todd, de Edimburgo sobre os futuros contingentes: "Future contingents are all false". Está publicado em Mind, volume 125, Number 499, Julho de 2016.
Como sempre suspeitei, proposições contingentes sobre o futuro são falsas: futuros contingentes envolvem uma contradição interna. Se algo que acontecerá, acontece determinadamente, então a proposição não é contingente. Precisa ser verdadeira ou falsa. Se algo que acontecerá não é determinado, a proposição contingente será falsa também (pág. 795). Há mais: "Se existem muitos modos pelos quais as coisas podem acontecer a partir de agora, então não há qualquer fundamento para que um desses modos seja especial entre os muitos".
O futuro, como registra o Todd, não é único.
domingo, 4 de dezembro de 2016
Música mística
2. E esta canção era a mais espantosa, grande e maravilhosa das coisas, pois por meio da melodia que está na boca e no instrumento, a alma desperta e o Espírito Santo nela resplende. E vai ao alto e alcança o supremo entendimento, que não podia antes atingir.
3. E esta canção excelente é uma voz que sai da boca dos cantores em temor, espanto e santidade. Sobe e desce, se estende e se encurta, como se inspirada por uma canção dos altos ministros. E enquanto se move por graus que são conhecidos pelo desenho dos pontos, em frases cantadas por vozes deleitosas, tais frases são ordenadas de acordo com as virtudes espirituais, como está explicado no ensino da Música.
7. "E ao rei Salomão - possa descansar em paz - foi dado a saber essa canção, mais do que a qualquer outro em sua geração. Como dizem aqueles cuja memória é uma benção: ´nove anjos que cantam à noite cantam sobre todos os que podem cantar; e quando os homens começam a cantar, os mais elevados se somam a eles para que possam saber e compreender e alcançar o que a Terra e os Céus não alcançam. Ao cantar, eles ganham poder".
8. Rabi Nehemias disse: `Feliz é aquele a quem é dado a conhecer esta canção, pois aquele que a conhece, conhece a Torá e a sabedoria, e há de ouvir e investigar e ganhará poder e gevurah sobre as coisas que foram e as que serão´.
Isaac ben Solomon Ibn Sahula (n. 1244), Comentário ao Cântico dos Cânticos.
Seleção dos trechos "Canções como conhecimento transcendental", citados por Joscelyn Godwin, Music, Mysticism and Magic. A Sourcebook, Londres, 1986.
De acordo com Godwin, esse penúltimo parágrafo (7) é uma reelaboração de trechos do Zohar. Ibn Sahula viveu na Espanha de Alfredo, o Sábio, e viajou pelo Oriente Médio. É o autor de uma célebre e ainda editada coleção de histórias fantásticas e fábulas.
3. E esta canção excelente é uma voz que sai da boca dos cantores em temor, espanto e santidade. Sobe e desce, se estende e se encurta, como se inspirada por uma canção dos altos ministros. E enquanto se move por graus que são conhecidos pelo desenho dos pontos, em frases cantadas por vozes deleitosas, tais frases são ordenadas de acordo com as virtudes espirituais, como está explicado no ensino da Música.
7. "E ao rei Salomão - possa descansar em paz - foi dado a saber essa canção, mais do que a qualquer outro em sua geração. Como dizem aqueles cuja memória é uma benção: ´nove anjos que cantam à noite cantam sobre todos os que podem cantar; e quando os homens começam a cantar, os mais elevados se somam a eles para que possam saber e compreender e alcançar o que a Terra e os Céus não alcançam. Ao cantar, eles ganham poder".
8. Rabi Nehemias disse: `Feliz é aquele a quem é dado a conhecer esta canção, pois aquele que a conhece, conhece a Torá e a sabedoria, e há de ouvir e investigar e ganhará poder e gevurah sobre as coisas que foram e as que serão´.
Isaac ben Solomon Ibn Sahula (n. 1244), Comentário ao Cântico dos Cânticos.
Seleção dos trechos "Canções como conhecimento transcendental", citados por Joscelyn Godwin, Music, Mysticism and Magic. A Sourcebook, Londres, 1986.
De acordo com Godwin, esse penúltimo parágrafo (7) é uma reelaboração de trechos do Zohar. Ibn Sahula viveu na Espanha de Alfredo, o Sábio, e viajou pelo Oriente Médio. É o autor de uma célebre e ainda editada coleção de histórias fantásticas e fábulas.
domingo, 27 de novembro de 2016
Mais esfera
O estudo das conjunções de planetas prossegue, sempre com uma preocupação bem prática, afinal que scientia est multum utilis multis, si esset in promptu, ut medicis, physicis et cyriurgicis, marinariis, mercatoribus, etc.; eo quod bona dispositio lune significat bonam disposititionem temporis, et fortuna multorum, quia reddit naturaliter diem laudabilem, et bonum significat super dispositionem fortune multorum. E, sobretudo, sanitas lune est sanitas omnis rei. Um capítulo seguinte trata do apogeu e do perigeu dos corpos celetes e, afinal, chega a hora de tratar do movimento retrógrado dos planetas.
Pensava que seria o único embaraço para uma visão de mundo composta por movimentos circulares e constantes, mas há outros embaraços: a variação no diâmetro aparente do Sol ao longo do dia, mais difícil ainda de explicar. Bartolomeu invoca "vapores da terra e da água", que se acumulam na esfera terrestre e atrapalham a visão do Sol ao meio dia, e compara com a visão submarina das coisas, quando aliquis est sub aqua maris cum oculis apertis. Como nota o Barbour, a existência do movimento retrógrado causa embaraço, mas nenhum autor medieval sequer tentou explicar o fenômeno. Por fim, vem o exame dos climas da Terra, ou seja, de sua divisão em meridianos e círculos. Bartolomeu sabe, evidentemente, que existe um outro hemisfério, mas nec possint ire per viam nature, quod negatur causa zona perhuste, scilicet tanti caloris qui circundat eam per totum.
Pensava que seria o único embaraço para uma visão de mundo composta por movimentos circulares e constantes, mas há outros embaraços: a variação no diâmetro aparente do Sol ao longo do dia, mais difícil ainda de explicar. Bartolomeu invoca "vapores da terra e da água", que se acumulam na esfera terrestre e atrapalham a visão do Sol ao meio dia, e compara com a visão submarina das coisas, quando aliquis est sub aqua maris cum oculis apertis. Como nota o Barbour, a existência do movimento retrógrado causa embaraço, mas nenhum autor medieval sequer tentou explicar o fenômeno. Por fim, vem o exame dos climas da Terra, ou seja, de sua divisão em meridianos e círculos. Bartolomeu sabe, evidentemente, que existe um outro hemisfério, mas nec possint ire per viam nature, quod negatur causa zona perhuste, scilicet tanti caloris qui circundat eam per totum.
quarta-feira, 16 de novembro de 2016
Exercício de irracionalidade
Tal como no caso do Quixote, primeiro você ri, depois, chora. De um ponto de vista brasileiro, a história de Perón é quase inconcebível. A transformação de uma, digamos, atriz em primeira dama e co-governante já seria bizarra. As vicissitudes de seu cadáver embalsamado desafiam uma explicação racional. Em 1954, Vargas se suicidou por causa de uma crise aguçada por um mero assassinato político que não se consumou; em 1955, a Força Aérea Argentina bombardeou a Praça de Maio e a Casa Rosada, matando mais de 200 pessoas. Crime jamais apurado. O regime militar brasileiro, em duas décadas, não assassinou 200 pessoas.
Nos seus últimos anos, Perón desfilava pelos salões elegantes de Buenos Aires com uma amante de 15 anos. No Brasil, isso seria inconcebível, apesar da fama do país. Perón ordenou a prisão de bispos! Bom, não falamos das relações com o nazismo, da corrupção quase inacreditável (Perón quase privatizou o comércio internacional de commodities da Argentina). Em suma, visto de Buenos Aires, o populismo brasileiro pode ser considerado um exercício de racionalidade. O Varguismo é apenas um assunto para historiadores; o Peronismo ocupa, nesse momento, a Praça de Maio.
O livro de Horacio Vázquez-Rial é de 2004.
Nos seus últimos anos, Perón desfilava pelos salões elegantes de Buenos Aires com uma amante de 15 anos. No Brasil, isso seria inconcebível, apesar da fama do país. Perón ordenou a prisão de bispos! Bom, não falamos das relações com o nazismo, da corrupção quase inacreditável (Perón quase privatizou o comércio internacional de commodities da Argentina). Em suma, visto de Buenos Aires, o populismo brasileiro pode ser considerado um exercício de racionalidade. O Varguismo é apenas um assunto para historiadores; o Peronismo ocupa, nesse momento, a Praça de Maio.
O livro de Horacio Vázquez-Rial é de 2004.
terça-feira, 15 de novembro de 2016
Dynamics
Comprei antes de ler a resenha ambígua do Lubos e, de fato, examinando bem, não há muita coisa nova no livro. Alguns detalhes técnicos do Almagesto eu já não me recordava, como o equante, e é evidente que a visão de um universo onde a Terra está no centro de tudo não fazia muito sentido desde a época de sua publicação. As consequências desse fato é que, curiosamente, não mereciam maior estudo. Aprendi duas coisas. A primeira é a real relevância da obra de Kepler, que vai muito além da descoberta das leis empíricas do movimento dos planetas. Já está ali uma intuição da natureza da gravitação e também do Cálculo. A segunda é que, ao contrário de Newton, Descartes e Huygens viram bem claramente que todo movimento é relativo. Viram, mas não escreveram com a ênfase devida por razões bem conhecidas. A relatividade de Galileu fica muito bem nessa foto.
"However, the main conclusion to be drawn from the two and half millenia that this volume has covered can already be stated: the dynamical frame of reference, and not the ground under our feet or a sphere of fixed stars in the heavens, is the true backbone of the world."
Julian Barbour, The Discovery of Dynamics, CUP, 2001.
"However, the main conclusion to be drawn from the two and half millenia that this volume has covered can already be stated: the dynamical frame of reference, and not the ground under our feet or a sphere of fixed stars in the heavens, is the true backbone of the world."
Julian Barbour, The Discovery of Dynamics, CUP, 2001.
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