Há algum tempo, encontrei na Amazon uma biografia romanceada de Ana Magdalena Bach. É um gênero literário com tradição: existe uma biografia ficcional do século XIX que mereceu alguma fama. Die Sängerin, contudo, tem outra intenção. O trabalho de Eleonore Dehnherdt, uma pedagoga alemã que vive de sua pena, é construir uma biografia tradicional, usando o material documental existente e a pesquisa contemporânea sobre vida cotidiana. É esse material que permite falar como se fazia uma roupa de mulher no início do século XVIII, como se organizava a vida doméstica, etc. Com a passagem das páginas, contudo, as limitações do trabalho vão ficando encantadoramente claras. Ana Magdalena, por exemplo, esteve grávida ou amamentando enquanto foi fértil e viveu como João Sebastião. Como descrever essa experiência subjetiva e intensa, sem apelar a algum clichê do século XXI? (O livro foi publicado originalmente em 2007). Como é passar vinte anos grávida ou amamentando? Qual o espaço que tal realidade deve ter em uma biografia? E a morte de tantos filhos? Como escrever realisticamente sobre tais fatos, com o ponto de vista do século XXI?
Quando se aproxima o fim, os dilemas da biografia de Ana Magdalena ficam ainda mais candentes. Depois da morte de João Sebastião, praticamente não existem informações sobre sua viúva, que passou a viver em algum aposento na casa de um velho amigo, até sua morte em 1760. Nada sabemos, só existem especulações, sobre dez anos de vida e de lembranças. Como tantos de nós, Ana Magdalena desaparece da História quase sem deixar vestígios, nem lembranças. Há algo de profundamente triste em tudo isso.
terça-feira, 2 de julho de 2019
quarta-feira, 12 de junho de 2019
As canções do Sul
Qu Yuan é uma figura tradicional da mitologia política e literária da China. A coletânea de poemas que carrega seu nome pertence ao mesmo domínio e seu significado é comparável ao da poesia grega dos tempos clássicos. No Ocidente, a democracia chocou a mente dos homens; na China, foi o Império. O bom governo é assunto de uma disputa no Ocidente; na Oriente, é uma questão moral. A tirania é sempre péssima, ainda que por motivos diversos. A coletânea que tenho é a tradução de David Hawkes, o tradutor do Sonho, e faz jus aos grandes momentos do livro. Li sao é a peça óbvia na coletânea, mas os poemas que querem chamar as almas de volta são também encantadoras.
"Quando subi ao esplendor dos céus
De relance vi, lá embaixo, minha velha casa,
O coração do cocheiro pesou e os cavalos por saudade
voltaram suas cabeças e se recusaram a seguir"
Volta, minh´alma.
"Quando subi ao esplendor dos céus
De relance vi, lá embaixo, minha velha casa,
O coração do cocheiro pesou e os cavalos por saudade
voltaram suas cabeças e se recusaram a seguir"
Volta, minh´alma.
terça-feira, 4 de junho de 2019
Política e expertise
Andei colocando leituras em dia, incluindo um livro já antigo sobre expertise em ambiente legislativo. Kevin Esterling era professor da UCLA em Riverside quando publicou The Political Economy of Expertise, pela editora da Universidade de Michigan, em 2004. A essa altura da vida, já sei de cor como esses livros são escritos e os casos estudados são antigos: o caso do Clean Air Act no governo Bush, o caso dos vouchers educacionais e o caso das HMOS, a partir da proposta original de Nixon. A conclusão fundamental é que o processo legislativo americano, visto do início do século XXI, podia aceitar de forma relativamente ampla o insumo da ciência, exata ou social. O seu impacto variava, dependendo do assunto e da qualidade dos atores sociais envolvidos, mas a conclusão geral do trabalho é positiva. Não por motivos ingênuos, mas porque as partes interessadas podem encontrar na ciência uma base legítima e politicamente forte para sustentar suas posições. Mesmo quando são políticas, no sentido amplo da palavra.
segunda-feira, 22 de abril de 2019
Purgatorio Canto VIII
"Era già l'ora che volge il disio
ai navicanti e 'ntenerisce il core
lo dì c' han detto ai dolci amici addio."
ai navicanti e 'ntenerisce il core
lo dì c' han detto ai dolci amici addio."
versos 1-3
"Per lei assai di lieve si comprende
quanto in femmina foco d’amor dura,
se l’occhio o ’l tatto spesso non l’accende."
quanto in femmina foco d’amor dura,
se l’occhio o ’l tatto spesso non l’accende."
versos 76-78
domingo, 21 de abril de 2019
Purgatorio, Canto XXI
"Sì mi diè, dimandando, per la cruna
del mio disio, che pur con la speranza
si fece la mia sete men digiuna. "
l’alma sorprende, e di voler le giova. "
non far, ché tu se’ ombra e ombra vedi".
del mio disio, che pur con la speranza
si fece la mia sete men digiuna. "
37 e ss.
"De la mondizia sol voler fa prova,
che, tutto libero a mutar convento,l’alma sorprende, e di voler le giova. "
61 e ss.
"Da pureza, só o querer dá prova
que, livre, convencido de mudar,
à alma surpreende, e de querer o consegue".
"Già s’inchinava ad abbracciar li piedi
al mio dottor, ma el li disse: "Frate,non far, ché tu se’ ombra e ombra vedi".
130 e ss.
"e tratando l´ombra come cosa salda".
136.
domingo, 18 de novembro de 2018
Após as eleições
Escrevo por mero compromisso, após meses de confusões eleitorais. Tudo terminou bem, como previsto, o que é bom para os modelos e bom para os negócios. Terminei a campanha em Paris, à sombra da Madeleine.
segunda-feira, 16 de abril de 2018
As coisas que não li
O Defensor da Paz (1324) deve ser o único clássico da política que ainda não li. Deveria ter feito isso na pós, mas preferi ler o Polycraticus. Por isso, mandei vir o ensaio clássico, publicado em 1920, do professor de História Eclesiástica de Harvard, o venerável Ephraim Emerton, para preencher parcialmente a lacuna.
The Defensor Pacis of Marsiglio of Padua. A Critical Study traz tudo que é importante saber sobre a bio e a obra do grande médico/jurista, companheiro de confusões de Guilherme de Ockham e Luís da Baviera. É, ao mesmo tempo, uma denúncia do abuso do poder do Papa e uma boa exposição da teoria do Imperador como representante do Povo. Uma ideia poderosa, como se pode deduzir com facilidade. A descrição da disfuncionalidade do Poder Espiritual é particularmente pungente: vou ter de comprar e ler o tratado de Marsílio (1275-1342).
The Defensor Pacis of Marsiglio of Padua. A Critical Study traz tudo que é importante saber sobre a bio e a obra do grande médico/jurista, companheiro de confusões de Guilherme de Ockham e Luís da Baviera. É, ao mesmo tempo, uma denúncia do abuso do poder do Papa e uma boa exposição da teoria do Imperador como representante do Povo. Uma ideia poderosa, como se pode deduzir com facilidade. A descrição da disfuncionalidade do Poder Espiritual é particularmente pungente: vou ter de comprar e ler o tratado de Marsílio (1275-1342).
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018
Star Trek Discovery
Já tinha ouvido falar de Paul Stamets antes da nova versão de Star Trek, mas é evidente que a homenagem da série e sua participação em entrevistas sobre o show tornaram imperativo comprar o livro dele, Mycelium Running (2005). É um curso básico sobre fungos e cogumelos e também um manual para seu cultivo. Ia dizer que tem um sabor de Era de Aquário, mas a expressão "sabor" poderia soar ambígua. Na prática, o livro está baseado em uma ideia importante: a ubiquidade das redes miceliais. São elas as encarregadas do processamento da matéria orgânica e mesmo a inorgânica para posterior reposição no mundo vivo e reequilíbrio mineral. Fungos são capazes de absorver cádmio e mercúrio; de processar celulose e de se alimentar de radiação. Acho que a observação que melhor resume o livro está na página 101:
"Com dióxido de carbono e água como subprodutos, o metabolismo dos fungos é o reverso da fotossíntese, reduzindo a celulose e a linhita a formas mais simples e as reformulando que quitinas, polissacarídeos, proteínas, enzimas e álcoois. As interações de fungos e bactérias evoluíram em complexos processos bioquímicos para a produção de nutrientes, constituindo o fundamento microbial de nosso ecossistema"
Esporos se espalham pelo espaço em escala desconhecida. A rede micelial se estende pelo universo, como descobriu o Paul Stamets em Discovery. Os dois Stamets.
"Com dióxido de carbono e água como subprodutos, o metabolismo dos fungos é o reverso da fotossíntese, reduzindo a celulose e a linhita a formas mais simples e as reformulando que quitinas, polissacarídeos, proteínas, enzimas e álcoois. As interações de fungos e bactérias evoluíram em complexos processos bioquímicos para a produção de nutrientes, constituindo o fundamento microbial de nosso ecossistema"
Esporos se espalham pelo espaço em escala desconhecida. A rede micelial se estende pelo universo, como descobriu o Paul Stamets em Discovery. Os dois Stamets.
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018
Quiero contar una cosa muy temeraria
Acho que mencionei aqui a hipótese do Christian Duverger sobre a autoria da Historia Verdadera de la Conquista de la Nueva España. Cortés seria o autor secreto dessa narrativa pessoal, de um simples e humilde soldado. Por conta disso, fui reler o livro escrito por volta de 1568, quase cinquenta anos depois dos eventos, e publicado pela primeira vez em 1632. Minha edição é mexicana, da Alianza, de 1991. Os fatos são conhecidos e não vou repeti-los. O que importa é o que li agora, passados os cinquenta anos de vida.
Primeiro, a história de Malintzin. Assombrosa em si mesma, pode ficar ainda mais assombrosa se ela foi a fonte de informações sobre a política dos Aztecas. De fato, é estranho que Cortés, mal chegado ao México, tenha compreendido de imediato a situação diplomática e política do império nahuatl. Houve alguém que lhe deu as pistas e quem melhor que uma mulher, a vítima preferencial desses arranjos. Se Malintzin foi mesmo a conselheira de Cortés (Bernal é o primeiro a reconhecer sua importância), a história verdadeira da Conquista da Nova España é ainda mais fascinante.
Segundo, há o capítulo 156, sobre a captura de Cuahutemoc. Os trechos sobre a mortandade da batalha são famosos, mas não me lembrava da confissão de Bernal, do medo que tinha dos combates, do horror dos sacrifícios. Sabemos que Bernal esteve no campo da batalha e sabemos que, como qualquer um, tremeu.
Primeiro, a história de Malintzin. Assombrosa em si mesma, pode ficar ainda mais assombrosa se ela foi a fonte de informações sobre a política dos Aztecas. De fato, é estranho que Cortés, mal chegado ao México, tenha compreendido de imediato a situação diplomática e política do império nahuatl. Houve alguém que lhe deu as pistas e quem melhor que uma mulher, a vítima preferencial desses arranjos. Se Malintzin foi mesmo a conselheira de Cortés (Bernal é o primeiro a reconhecer sua importância), a história verdadeira da Conquista da Nova España é ainda mais fascinante.
Segundo, há o capítulo 156, sobre a captura de Cuahutemoc. Os trechos sobre a mortandade da batalha são famosos, mas não me lembrava da confissão de Bernal, do medo que tinha dos combates, do horror dos sacrifícios. Sabemos que Bernal esteve no campo da batalha e sabemos que, como qualquer um, tremeu.
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018
Circunferência infinita, centro em toda parte
Há tempos procurava uma oportunidade para conhecer o como e o porquê do Círculo de Viena, onde orbitaram as melhores mentes que conheço. Schlick e Carnap estavam no centro, mas Wittgenstein, Goedel, Russell e mesmo Einstein estavam em torno. Esse é o tema de Exact Thinking in Demented Times (2017), do professor Karl Sigmund, ele mesmo um pioneiro da aplicação de matemática à Teoria da Evolução. Um subproduto evidente das ideias do Círculo.
A personalia era conhecida, mas os detalhes do assassinato de Schlick, posto no quadro do naufrágio da Áustria no nazismo, e o comportamento maluco de Wittgenstein foram novidades para mim. O aspecto mais interessante, no fim, é notar que as derivações mais importantes do Círculo, as obras de Popper e de Goedel, não tinham uma relação direta com as reuniões das quinta feiras em Viena. Ambos, contudo, confrontam, testam e refinam as ideias fundamentais da análise lógica da linguagem. Seja a linguagem qual for.
A personalia era conhecida, mas os detalhes do assassinato de Schlick, posto no quadro do naufrágio da Áustria no nazismo, e o comportamento maluco de Wittgenstein foram novidades para mim. O aspecto mais interessante, no fim, é notar que as derivações mais importantes do Círculo, as obras de Popper e de Goedel, não tinham uma relação direta com as reuniões das quinta feiras em Viena. Ambos, contudo, confrontam, testam e refinam as ideias fundamentais da análise lógica da linguagem. Seja a linguagem qual for.
sábado, 2 de dezembro de 2017
Imagens
Não sei quem é exatamente Jurgis Baltrusaitis e não sei como cheguei a saber de seu Les perspectives dépravées. Anamorphoses (2008). Acho que foi no livro do Fumaroli sobre retórica. É um registro interessante sobre uma ideia relativamente trivial: usar as regras da perspectiva para esconder uma imagem. Ou seja, produzir um ângulo específico (ou um tipo de espelho) onde as imagens seriam corretamente vistas. Fora desse ângulo ou sem esse espelho, apenas imagens distorcidas, como o célebre crânio na tela de Holbein. Baltrusaitis faz uma história dessa moda, a partir do século XVI, e vai revelando até conexões chinesas. Em um mundo de realidade virtual e CGI, anamorfoses são mais que obsoletas. Ainda assim, é a velha pergunta barroca: o que estou vendo é real? O que afinal estou vendo?
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
rifatto sì, come pianta novelle
Completei esse ano a terceira leitura da Commedia, acho até que escrevi sobre o fato nas Reflexões. Saí convencido de que o livro mais brilhante é o Purgatório, quando o Poeta fica face a face com o drama da punição. No Inferno, as penas são diretas e incontroversas; no Purgatório, sua Justiça não é tão evidente. Dante vive momentos de transição, de Virgílio a Beatriz. Fica claro que sua viagem não é meramente turística, nem teológica. Algo está acontecendo com ele e, de fato, seu nome, na voz de Beatriz, aparece no poema. Por isso, mandei vir o livro, relativamente famoso na comunidade de estudos dantescos, de Francis Ferguson, Dante´s Drama of the Mind. A Modern Reading of the Purgatorio (Princeton, 1953).
Entrega bem menos do que promete. As idéias interessantes estão nas linhas acima e Ferguson tem o mérito de identificá-las com elegância e pertinácia. Se você espera uma forma de "melhores momentos" de sua poesia, como no ensaio de Borges, não vai encontrar. No final, para chatear o leitor, vem as comparações do Brande-Lança, uma obsessão de autores anglo saxões. Parece que não conseguem conviver com o mérito genuíno de Dante e Cervantes. Chega a ser embaraçoso e é melhor saltar essas partes. O parágrafo sobre o Paraíso Terrestre é particularmente frustrante.
Entrega bem menos do que promete. As idéias interessantes estão nas linhas acima e Ferguson tem o mérito de identificá-las com elegância e pertinácia. Se você espera uma forma de "melhores momentos" de sua poesia, como no ensaio de Borges, não vai encontrar. No final, para chatear o leitor, vem as comparações do Brande-Lança, uma obsessão de autores anglo saxões. Parece que não conseguem conviver com o mérito genuíno de Dante e Cervantes. Chega a ser embaraçoso e é melhor saltar essas partes. O parágrafo sobre o Paraíso Terrestre é particularmente frustrante.
terça-feira, 19 de setembro de 2017
Gabinete de Maravilhas
A coletânea foi publicada em 2013 pelas professoras Lavinia Michero e Martina Mazzota, com um título em italiano e alemão, Wunderkammer. Arte, Natura, Meraviglia, ieri e oggi. É menos ambicioso do que parece e tem mais imagens do que texto. Na verdade, as figuras importantes da coletânea são dois italianos, Ulisse Aldrovandi e Manfredo Settala, organizadores de alguns museus de maravilhas. Há uma teoria interessante por trás dos gabinetes: o conhecimento seria revelado por objetos excepcionais. Uma coleção de objetos excepcionais deveria produzir ciência. Sabemos que não é assim que funciona e as coleções logo se dedicaram ao bizarro ou ao precioso. Ao final do século XVIII, a ciência moderna acabou condenando os gabinetes de maravilha ao mundo do bizarro e dos amadores. Poucos sobreviveram, apenas os objetos com algum valor intrínseco terminaram preservados. As versões modernas são apenas curiosidades.
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
Jacopo Barozzi, dito o Vignola
O título do livro do Bruno Adorni (Skira, 2008) nem chega a tal detalhe, dizendo apenas o nome com sua cidade: Jacopo Barozzi da Vignola. Não é uma obra erudita, mas um resumo belamente ilustrado da erudição que se acumula em torno do arquiteto da villa em Caprarola e de tantas outras obras excepcionais. Sou, como já registrei nas duas versões desse blog, obcecado com uma de suas criações, a Villa Giulia, atual Museu Etrusco. O ninfeu é do Ammanati, mas o prédio côncavo, com suas colunas inteligentes é criação de sua mente. Adorni registra que, ao final de sua carreira, as relações com os Farnese e seu próprio êxito profissional se transformaram em obstáculo: suas soluções eram límpidas e irrefutáveis, quando os comitentes já procuravam o obscuro e o polêmico. Restou, contudo, seu domínio de uma linguagem omnipresente: as Regras, hoje visíveis em prédios por todo o planeta. Em suas cartas, vemos um homem honesto, trabalhador, discreto e capaz de encarar a ingratidão com bonomia. No meio de tantos gênios turbulentos, alguém que levava Euclides para o mundo material.
quinta-feira, 10 de agosto de 2017
Uma notável coleção de objetos
Terminei o segundo volume do Quarto Vermelho ainda nas férias, no mar do Ceará. O próprio tradutor avisa que é o volume das coisas belas, em que Xuequin se diverte descrevendo roupas, móveis, jóias e mesmo objetos de cozinha. São meras superfícies, contudo. Suas páginas vão insinuando, aqui e ali, que o fim está próximo, apesar dos concursos de poesia, das visitas de parentes vindos do Sul e dos donativos imperiais. Jia She informa o leitor que o dinheiro está acabando ou que vai acabar em algum momento, enquanto a matriarca ordena festas e jardins.
Acho que jamais esquecerei a descrição da festa do Ano Novo, quando, em ondas, por gerações, todos vão se curvando diante da Senhora Jia, uma exibição de piedade filial confuciana e de tradições manchus. O tempo está passando, é ano novo.
Acho que jamais esquecerei a descrição da festa do Ano Novo, quando, em ondas, por gerações, todos vão se curvando diante da Senhora Jia, uma exibição de piedade filial confuciana e de tradições manchus. O tempo está passando, é ano novo.
Q
O título da coletânea organizada pelos professores Jean Michel Salanskis (pesquisador do CNRS) e Hourya Sinaceur (diretora de pesquisa no CNRS) é bem adequado: Le Labyrithe du Continu (Springer-Verlag, Paris, 1992). Poucas idéias são, para mim, mais perturbadoras do que a reta dos números reais. Seus paradoxos são conhecidos há mais de um século, mas a pergunta "qual o primeiro número maior que 1?" me fascina.
Ontem ia lendo um artigo sobre Leibniz, na verdade, sobre a notação que Leibniz sugere para o tratamento matemático do infinito. ("Leibniz´ Principle and Omega Calculus", D. Laugwitz, professor em Darmstadt). O artigo é menos interessante do que a sugestão de Leibniz: o infinito e o infinitesimal são apenas ficções convenientes. Podem ser substituídos por quantidades definidas para se obter a precisão que se desejar no cálculo. É evidente que a "precisão que se desejar" não parece filosoficamente sólida, mas o argumento é poderoso: "se alguém duvida de seus resultados, deve dar um exemplo".
Por isso sigo achando que a reta dos reais é um fonte inesgotável de idéias.
Ontem ia lendo um artigo sobre Leibniz, na verdade, sobre a notação que Leibniz sugere para o tratamento matemático do infinito. ("Leibniz´ Principle and Omega Calculus", D. Laugwitz, professor em Darmstadt). O artigo é menos interessante do que a sugestão de Leibniz: o infinito e o infinitesimal são apenas ficções convenientes. Podem ser substituídos por quantidades definidas para se obter a precisão que se desejar no cálculo. É evidente que a "precisão que se desejar" não parece filosoficamente sólida, mas o argumento é poderoso: "se alguém duvida de seus resultados, deve dar um exemplo".
Por isso sigo achando que a reta dos reais é um fonte inesgotável de idéias.
quinta-feira, 11 de maio de 2017
O quarto vermelho
Agora lendo a versão completa, na tradução genial de David Hawkes, só me resta repetir o que escrevi em 2009:
"Não é uma viagem curta, duas horas e quinze, e consumiu facilmente o capítulo VII de The Classic Chinese Novel, do professor C.T Hsia. Seu texto, brilhante em vários momentos, trata do Sonho do Quarto Vermelho (Hung-lou meng), publicado originalmente em 1792. O autor é Tsao Hsueh-Chim, mas já sabemos que sua real autoria jamais será conhecida e é provável que a extensão atual e parte dos capítulos finais seja obra dos editores. Fosse Chin Sheng'tan vivo, o Sonho seria ainda melhor e mais ajustado. Notas anteriores desse blog registram que já tentei ler o Sonho, sendo interrompido pelo tédio natural provocado por desventuras de amor.
O professor C. T. Hsia mostra, contudo, que essas desventuras, festas, romances e outras trivialidades sociais da grande mansão senhorial do Yungkuofu não podem ser entendidas senão à luz do que não se mostra. A realidade da política imperial, onde toda riqueza é incerta e toda posição superior pode comprometer a honra. A realidade das políticas matrimoniais, onde o amor é inútil e a sensibilidade um risco. Durante um tempo, as jovens sonham com o amor, os jovens sonham em ser sensíveis. Elas querem se divertir, eles não querem crescer. É como em Brasília.
O relógio da vida, contudo, segue batendo. Uma hora, virão os concursos para o serviço do Imperador; uma hora virão os casamentos arranjados ou a posição de concubina. Então os jovens vêem que os velhos apenas os pascem como gado, os divertem por um tempo, os deixam brincar na proteção de um jardim. Tsao Hseuh-Chin, contudo, não está interessado em escrever um romance de formação. As moças ficam doentes de amor, os jovens são empurrados para a perda do caráter, para a insensibilidade. Algumas morrem, outras viram freiras, outros se embrutecem no Tao. Tudo se desfaz, como um sonho no quarto vermelho. Fica um gosto ruim na boca."
"Não é uma viagem curta, duas horas e quinze, e consumiu facilmente o capítulo VII de The Classic Chinese Novel, do professor C.T Hsia. Seu texto, brilhante em vários momentos, trata do Sonho do Quarto Vermelho (Hung-lou meng), publicado originalmente em 1792. O autor é Tsao Hsueh-Chim, mas já sabemos que sua real autoria jamais será conhecida e é provável que a extensão atual e parte dos capítulos finais seja obra dos editores. Fosse Chin Sheng'tan vivo, o Sonho seria ainda melhor e mais ajustado. Notas anteriores desse blog registram que já tentei ler o Sonho, sendo interrompido pelo tédio natural provocado por desventuras de amor.
O professor C. T. Hsia mostra, contudo, que essas desventuras, festas, romances e outras trivialidades sociais da grande mansão senhorial do Yungkuofu não podem ser entendidas senão à luz do que não se mostra. A realidade da política imperial, onde toda riqueza é incerta e toda posição superior pode comprometer a honra. A realidade das políticas matrimoniais, onde o amor é inútil e a sensibilidade um risco. Durante um tempo, as jovens sonham com o amor, os jovens sonham em ser sensíveis. Elas querem se divertir, eles não querem crescer. É como em Brasília.
O relógio da vida, contudo, segue batendo. Uma hora, virão os concursos para o serviço do Imperador; uma hora virão os casamentos arranjados ou a posição de concubina. Então os jovens vêem que os velhos apenas os pascem como gado, os divertem por um tempo, os deixam brincar na proteção de um jardim. Tsao Hseuh-Chin, contudo, não está interessado em escrever um romance de formação. As moças ficam doentes de amor, os jovens são empurrados para a perda do caráter, para a insensibilidade. Algumas morrem, outras viram freiras, outros se embrutecem no Tao. Tudo se desfaz, como um sonho no quarto vermelho. Fica um gosto ruim na boca."
domingo, 23 de abril de 2017
Peacock room
Dentre as coisas que me causam maravilha, a Sala do Pavão, no museu Freer, tem um lugar especial. Fui pesquisar o assunto e descobri que Charles Lang Freer (1854-1919) e James McNeill Whistler (1834-1903) mantiveram uma bela amizade, apesar da distância em anos e condição social. Freer era já o magnata dos carros de trem quando conheceu o pintor e logo se dedicaria apenas à sua fortuna e sua coleção de arte. As cartas que ambos trocaram foram publicadas em 1995: With Kindest Regards (1890-1903), editadas por Linda Merrill, em uma publicação do Smithsonian. Freer tinha legítimo entusiasmo com a arte de Whistler, mas a correspondência entre os dois tem algo de comercial, cauteloso e meio distante. O pintor tinha fama de temperamental e Freer, por seu lado, era uma pessoa reservada.
A Introdução acaba preenchendo os espaços vazios deixados pelas cartas. Tecnicamente, para os padrões do século XIX, Whistler estava em seus últimos anos e Freer começava a aproveitar seu tempo e dinheiro. A amizade em torno da obra era o real conteúdo dessa relação respeitosa e também interessada. Na história da arte, um evento raro.
A Introdução acaba preenchendo os espaços vazios deixados pelas cartas. Tecnicamente, para os padrões do século XIX, Whistler estava em seus últimos anos e Freer começava a aproveitar seu tempo e dinheiro. A amizade em torno da obra era o real conteúdo dessa relação respeitosa e também interessada. Na história da arte, um evento raro.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
Dois motivos
Sensacional. Há duas razões para não atribuir significados substantivos a resultados eleitorais. A primeira é clássica, iluminista: todo procedimento de votação é artificial e incapaz de refletir a diversidade de preferências. Está na raiz de processos de votação. Não tem como mudar e ainda é agravado pelo teorema de Arrow. A segunda é operacional: toda votação, em alguma medida, é manipulável ou manipulada. Reflete comportamento estratégico de eleitores e candidatos. Por isso, eleição é apenas uma eleição. Não quer dizer mais do que isso. Ah, o livro é de 1988.
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
Poetas menores
Poetae Minores é uma coletânea editada e traduzida pelo professor Ernest Raynaud e publicada pela Garnier em Paris em 1931. Está há tanto tempo em minha biblioteca que nem tem data e assinatura na contra capa. Deve ter chegado ao Rio de Janeiro nos anos 1950, para alguma biblioteca de gente com dinheiro e suas folhas ainda estão coladas depois da página 100. Não foi lido além desse ponto e deve ter sido vendido a um sebo nos anos 1980, onde o comprei. O livro vai fazer cem anos em pouco tempo e alimenta minha curiosidade. Leio, no correr dos anos, um poema aqui, outro ali. Os versos raramente são felizes. São poetas menores, literatos de corte, convencionais ou rebuscados. Vez por outra, uma fórmula feliz, como a dos poemas de Spurina ou Servastus, que reservo para um uso futuro, ou o curioso poema de Eucheria, ironizando um pretendente, no século V ou VI. Já tinha grande carinho por esse livro quando li o poema de Borges:
Poeta Menor
A meta é o olvido
Ele chegou antes.
Pós escrito. Os versos de Spurina, um político sério, mencionado por Plínio, o Jovem, tratam da renúncia à vida ativa: Nos sero pelagus vicimus invium/ Quidquid viximus, interit. O mero domínio do português permite intuir seu significado e sua contenção. A tradução do professor Raynaud, contudo, é prosaica.
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