Acho que mencionei aqui a hipótese do Christian Duverger sobre a autoria da Historia Verdadera de la Conquista de la Nueva España. Cortés seria o autor secreto dessa narrativa pessoal, de um simples e humilde soldado. Por conta disso, fui reler o livro escrito por volta de 1568, quase cinquenta anos depois dos eventos, e publicado pela primeira vez em 1632. Minha edição é mexicana, da Alianza, de 1991. Os fatos são conhecidos e não vou repeti-los. O que importa é o que li agora, passados os cinquenta anos de vida.
Primeiro, a história de Malintzin. Assombrosa em si mesma, pode ficar ainda mais assombrosa se ela foi a fonte de informações sobre a política dos Aztecas. De fato, é estranho que Cortés, mal chegado ao México, tenha compreendido de imediato a situação diplomática e política do império nahuatl. Houve alguém que lhe deu as pistas e quem melhor que uma mulher, a vítima preferencial desses arranjos. Se Malintzin foi mesmo a conselheira de Cortés (Bernal é o primeiro a reconhecer sua importância), a história verdadeira da Conquista da Nova España é ainda mais fascinante.
Segundo, há o capítulo 156, sobre a captura de Cuahutemoc. Os trechos sobre a mortandade da batalha são famosos, mas não me lembrava da confissão de Bernal, do medo que tinha dos combates, do horror dos sacrifícios. Sabemos que Bernal esteve no campo da batalha e sabemos que, como qualquer um, tremeu.
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018
Circunferência infinita, centro em toda parte
Há tempos procurava uma oportunidade para conhecer o como e o porquê do Círculo de Viena, onde orbitaram as melhores mentes que conheço. Schlick e Carnap estavam no centro, mas Wittgenstein, Goedel, Russell e mesmo Einstein estavam em torno. Esse é o tema de Exact Thinking in Demented Times (2017), do professor Karl Sigmund, ele mesmo um pioneiro da aplicação de matemática à Teoria da Evolução. Um subproduto evidente das ideias do Círculo.
A personalia era conhecida, mas os detalhes do assassinato de Schlick, posto no quadro do naufrágio da Áustria no nazismo, e o comportamento maluco de Wittgenstein foram novidades para mim. O aspecto mais interessante, no fim, é notar que as derivações mais importantes do Círculo, as obras de Popper e de Goedel, não tinham uma relação direta com as reuniões das quinta feiras em Viena. Ambos, contudo, confrontam, testam e refinam as ideias fundamentais da análise lógica da linguagem. Seja a linguagem qual for.
A personalia era conhecida, mas os detalhes do assassinato de Schlick, posto no quadro do naufrágio da Áustria no nazismo, e o comportamento maluco de Wittgenstein foram novidades para mim. O aspecto mais interessante, no fim, é notar que as derivações mais importantes do Círculo, as obras de Popper e de Goedel, não tinham uma relação direta com as reuniões das quinta feiras em Viena. Ambos, contudo, confrontam, testam e refinam as ideias fundamentais da análise lógica da linguagem. Seja a linguagem qual for.
sábado, 2 de dezembro de 2017
Imagens
Não sei quem é exatamente Jurgis Baltrusaitis e não sei como cheguei a saber de seu Les perspectives dépravées. Anamorphoses (2008). Acho que foi no livro do Fumaroli sobre retórica. É um registro interessante sobre uma ideia relativamente trivial: usar as regras da perspectiva para esconder uma imagem. Ou seja, produzir um ângulo específico (ou um tipo de espelho) onde as imagens seriam corretamente vistas. Fora desse ângulo ou sem esse espelho, apenas imagens distorcidas, como o célebre crânio na tela de Holbein. Baltrusaitis faz uma história dessa moda, a partir do século XVI, e vai revelando até conexões chinesas. Em um mundo de realidade virtual e CGI, anamorfoses são mais que obsoletas. Ainda assim, é a velha pergunta barroca: o que estou vendo é real? O que afinal estou vendo?
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
rifatto sì, come pianta novelle
Completei esse ano a terceira leitura da Commedia, acho até que escrevi sobre o fato nas Reflexões. Saí convencido de que o livro mais brilhante é o Purgatório, quando o Poeta fica face a face com o drama da punição. No Inferno, as penas são diretas e incontroversas; no Purgatório, sua Justiça não é tão evidente. Dante vive momentos de transição, de Virgílio a Beatriz. Fica claro que sua viagem não é meramente turística, nem teológica. Algo está acontecendo com ele e, de fato, seu nome, na voz de Beatriz, aparece no poema. Por isso, mandei vir o livro, relativamente famoso na comunidade de estudos dantescos, de Francis Ferguson, Dante´s Drama of the Mind. A Modern Reading of the Purgatorio (Princeton, 1953).
Entrega bem menos do que promete. As idéias interessantes estão nas linhas acima e Ferguson tem o mérito de identificá-las com elegância e pertinácia. Se você espera uma forma de "melhores momentos" de sua poesia, como no ensaio de Borges, não vai encontrar. No final, para chatear o leitor, vem as comparações do Brande-Lança, uma obsessão de autores anglo saxões. Parece que não conseguem conviver com o mérito genuíno de Dante e Cervantes. Chega a ser embaraçoso e é melhor saltar essas partes. O parágrafo sobre o Paraíso Terrestre é particularmente frustrante.
Entrega bem menos do que promete. As idéias interessantes estão nas linhas acima e Ferguson tem o mérito de identificá-las com elegância e pertinácia. Se você espera uma forma de "melhores momentos" de sua poesia, como no ensaio de Borges, não vai encontrar. No final, para chatear o leitor, vem as comparações do Brande-Lança, uma obsessão de autores anglo saxões. Parece que não conseguem conviver com o mérito genuíno de Dante e Cervantes. Chega a ser embaraçoso e é melhor saltar essas partes. O parágrafo sobre o Paraíso Terrestre é particularmente frustrante.
terça-feira, 19 de setembro de 2017
Gabinete de Maravilhas
A coletânea foi publicada em 2013 pelas professoras Lavinia Michero e Martina Mazzota, com um título em italiano e alemão, Wunderkammer. Arte, Natura, Meraviglia, ieri e oggi. É menos ambicioso do que parece e tem mais imagens do que texto. Na verdade, as figuras importantes da coletânea são dois italianos, Ulisse Aldrovandi e Manfredo Settala, organizadores de alguns museus de maravilhas. Há uma teoria interessante por trás dos gabinetes: o conhecimento seria revelado por objetos excepcionais. Uma coleção de objetos excepcionais deveria produzir ciência. Sabemos que não é assim que funciona e as coleções logo se dedicaram ao bizarro ou ao precioso. Ao final do século XVIII, a ciência moderna acabou condenando os gabinetes de maravilha ao mundo do bizarro e dos amadores. Poucos sobreviveram, apenas os objetos com algum valor intrínseco terminaram preservados. As versões modernas são apenas curiosidades.
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
Jacopo Barozzi, dito o Vignola
O título do livro do Bruno Adorni (Skira, 2008) nem chega a tal detalhe, dizendo apenas o nome com sua cidade: Jacopo Barozzi da Vignola. Não é uma obra erudita, mas um resumo belamente ilustrado da erudição que se acumula em torno do arquiteto da villa em Caprarola e de tantas outras obras excepcionais. Sou, como já registrei nas duas versões desse blog, obcecado com uma de suas criações, a Villa Giulia, atual Museu Etrusco. O ninfeu é do Ammanati, mas o prédio côncavo, com suas colunas inteligentes é criação de sua mente. Adorni registra que, ao final de sua carreira, as relações com os Farnese e seu próprio êxito profissional se transformaram em obstáculo: suas soluções eram límpidas e irrefutáveis, quando os comitentes já procuravam o obscuro e o polêmico. Restou, contudo, seu domínio de uma linguagem omnipresente: as Regras, hoje visíveis em prédios por todo o planeta. Em suas cartas, vemos um homem honesto, trabalhador, discreto e capaz de encarar a ingratidão com bonomia. No meio de tantos gênios turbulentos, alguém que levava Euclides para o mundo material.
quinta-feira, 10 de agosto de 2017
Uma notável coleção de objetos
Terminei o segundo volume do Quarto Vermelho ainda nas férias, no mar do Ceará. O próprio tradutor avisa que é o volume das coisas belas, em que Xuequin se diverte descrevendo roupas, móveis, jóias e mesmo objetos de cozinha. São meras superfícies, contudo. Suas páginas vão insinuando, aqui e ali, que o fim está próximo, apesar dos concursos de poesia, das visitas de parentes vindos do Sul e dos donativos imperiais. Jia She informa o leitor que o dinheiro está acabando ou que vai acabar em algum momento, enquanto a matriarca ordena festas e jardins.
Acho que jamais esquecerei a descrição da festa do Ano Novo, quando, em ondas, por gerações, todos vão se curvando diante da Senhora Jia, uma exibição de piedade filial confuciana e de tradições manchus. O tempo está passando, é ano novo.
Acho que jamais esquecerei a descrição da festa do Ano Novo, quando, em ondas, por gerações, todos vão se curvando diante da Senhora Jia, uma exibição de piedade filial confuciana e de tradições manchus. O tempo está passando, é ano novo.
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